Páginas

terça-feira, 4 de março de 2014

UMA AULA DE QUÍMICA E BIOLOGIA EM GÊNESIS

Segundo Augustus Nicodemus (Lopes, 2004, p. 28), um dos pontos de equilíbrio entre a “divindade e a humanidade das Escrituras” está na linguagem de acomodação. Essa linguagem seria a expressão pelos autores bíblicos “nos termos e dentro do conhecimento disponível naquela época, acomodando a verdade revelada em termos do que sabiam do mundo”. 

O autor, então, cita que no “livro de Levítico, se diz que a lebre rumina e que o morcego é uma ave. Sabemos que pelos padrões científicos atuais lebre não ruminam e morcegos não são aves”, justificando que do ponto de vista do observador “todos os animais que mexem com a boca após comer parecem ruminantes e tudo que tem asas e voa parece ave!” (Lopes, 2004, p. 28).

Por causa dessa característica de acomodação, a Bíblia é a-científica, não buscando, então, ser científica, como uma fonte de Antropologia, ou mesmo anticientífica, como se fosse motivo para negar as descobertas e avanços científicos. 

O que os autores e personagens bíblicos, portanto, sabiam do mundo da cognição e da complexidade da vida humana biológica em sua época?

A linguagem de acomodação também é um equilíbrio entre épocas diferentes. 

Veja, por exemplo, esta declaração de Jeremias: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?" (Jr 17.9).

De forma semelhante, em meados de 1662, Pascal já dizia: "todos os homens são quase sempre levados a crer não no que é provado, mas no que lhes agrada", de modo que "nenhum amante será jamais conquistada pelo intelecto, nenhum partidário mudará de lado ou de opinião depois que alguém lhe tenha "demonstrado" o seu erro como se demonstra um teorema, nenhum fanático vai renunciar à sua cegueira por ceder a um raciocínio bem efetuado" (Pascal, 2007, pp. 16, 65).

Na verdade, desde 1950, a noção de racionalidade ilimitada pelos seres humanos é contestada por pesquisadores dentro da Psicologia Cognitiva, pois "usualmente incluímos considerações subjetivas em nossas decisões", porque "não somos necessariamente irracionais", mas "racionais, porém dentro de alguns limites". Além disso, usamos "frequentemente atalhos mentais e mesmo vieses que limitam e, algumas vezes, distorcem nossa capacidade para tomar decisões racionais" (Sternberg, 2010, pp. 432, 433).

A retórica, por exemplo, é baseada em elementos afetivos e não apenas racionais, porque reconhece o ser humano como uma criatura racionalmente limitada (Sternberg, 2010, pp. 432, 433), não negando essa realidade universal.

A mesma noção de racionalidade limitada foi acomodada em diferentes linguagens: um personagem bíblico, um filósofo, um psicólogo e um cientista.

Vejamos uma aplicação dessa linguagem nos primeiros capítulos de Gênesis.

No primeiro capítulo, seguem dois apontamentos:
  • Animais e seres humanos são classificados como “almas viventes”[1], “que tem em si o fôlego da vida” [2] ou “seres viventes”[3], exceto “os vegetais” (Gn 1.14, 26, 30);
  • Ser humano tem a característica peculiar de ser “à imagem de Deus” e sua “semelhança” (Gn 1.26, 27), talvez, baseado apenas no contexto do próprio capítulo, pelo fato de terem uma relação consciente (cognitiva) com o Criador, de obediência (daí o nascimento da moralidade?), para cuidar e dominar os outros seres.
No primeiro apontamento, é possível ter havido uma acomodação de linguagem pelo autor, porque do ponto de vista do observador, como planta não respirava (macroscopicamente), era imóvel como os minerais, não buscava alimento nem se movimentava em espaços abertos, então poderia não ter o “fôlego” ou ser vivente como os outros.

Aliás, “Aristóteles, no século IV a.C., ordenou os animais pelo tipo de reprodução e por terem ou não sangue vermelho” (LINNAEUS, 2013). E “nos séculos XVII e XVIII os botânicos e zoólogos começaram a delinear o atual sistema de categorias, ainda baseados em características anatômicas superficiais” (SISTEMATICA, 2013).

O pai da taxonomia moderna, Carl Linnaeus, no século XVIII, por exemplo, nomeava “os taxa em formas que lhe pareciam pessoalmente do senso-comum, por exemplo, seres humanos são Homo sapiens (de "sapiência"), mas ele também descreveu uma segunda espécie humana, Homo troglodytes ("homem das cavernas", nome dado por ele ao chimpanzé). A classe Mammalia foi nomeada por suas glândulas mamárias porque uma das definições de mamíferos é que eles amamentam seus filhotes” (LINNAEUS, 2013).

Logo essa classificação de Gênesis não seria falsa ou distante aos padrões culturais da época.
Já no segundo capítulo, encontra-se:
  • Um detalhamento da formação do ser humano como “alma vivente”, a partir do “fôlego da vida” e do “pó da terra”, após um “vapor” ou “neblina” na terra;
  • Formação do homem a partir do “pó da terra” e não da “terra”, da “argila” ou do “barro”.
"Um vapor, porém, subia da terra, e regava toda a face da terra. E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente" (Gn 2.6-7, grifo nosso).

Com relação ao primeiro ponto, é muito comum encontrar interpretações ignorando o contexto do capítulo anterior, como se o homem tivesse “recebido uma alma” (na verdade, seria a própria alma, vivente) ou fosse o único de alma, diferente dos animais irracionais. E o mesmo vale para o “fôlego da vida”.

O melhor entendimento para esses termos está na semelhança entre água e oxigênio, dois elementos indispensáveis à vida, com o “vapor” e o “fôlego” respectivamente das “almas viventes” e nessa mesma ordem, porque “tão fundamental é a água para a Vida que as pesquisas de Vida em outros planetas, por exemplo, em Marte, procuram primeiro pela água”, pois, por causa de sua fórmula (H2O) gera uma tensão superficial “essencial à Vida dos vegetais, das árvores” e “em muitos processos biológicos e celulares” (Eberlin, 2010).


Ora, não havia Química e Biologia na época, portanto do ponto de vista do observador, o vento, a respiração, o sopro, que passava pelas narinas dos animais era um sinônimo de vida, daí o “fôlego da vida”.

É interessante notar como a ordem dos elementos na formação do homem se encaixa com o conhecimento científico de hoje, pois apenas, no final do século XVII, foi descoberto o oxigênio e seu consumo pela respiração (OXIGENIO, 2013).

Além disso, com relação ao segundo ponto, é importante perceber a semelhança entre “pó” e DNA, pelos seguintes motivos:
  • Esse “pó” é manipulado por um ser inteligente (daí a ação de Deus “formou”) e não poderia ser diferente, porque “o DNA é dos maiores espetáculos de engenharia molecular deste planeta. Um show multidimensional indesculpável de Design Químico Hiper Mega Inteligente. Uma das mais eloquentes evidências  de uma inteligência máxima a orquestrar a Vida através de uma avalanche de informação nano-molecular da mais eficiência e otimização” (Eberlin, 2010);
  • Do ponto de vista do observador, da época, o “pó” é o conceito mais próximo de um elemento extremamente pequeno como o DNA (2 nanômetro de largura com 3,4 nanômetro de comprimento), que é um “composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e alguns vírus” (DESOXIRRIBONUCLEICO, 2013);
  • Esse “pó” é composto de “terra”, exatamente porque análises químicas da composição do corpo humano e do pó da terra mostram elementos em comum: cálcio, ferro, magnésio, oxigênio, carbono, nitrogênio, fósforo, sódio, potássio, cloro, hidrogênio, enxofre etc.

O moderno "pó da terra" (DESOXIRRIBONUCLEICO, 2013)

Em vez de “pó da terra”, algumas traduções usam a expressão “argila da terra” ou “barro da terra”, o que não é mais adequado pela frase hebraica empregada (“apar min-hadamah”), pois “APAR pode ser traduzido como “poeira” e MIN-HADAMAH como “do solo”. APAR é o mesmo vocábulo usado para a frase muito conhecida por nós, presente em Gênesis 3,19: pois tu és pó e ao pó tornarás. A expressão hebraica quer significar a terra solta que encontramos no chão” (Rosa, 2011).


FONTE: http://aislanfp.blogspot.com.br/2013/06/uma-antiga-aula-de-quimica-e-biologia.html